O ProUni e o engodo da educação universitária

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Muito se fala da qualidade dos cursos cujo acesso é financiado via ProUni. Nossa produção acadêmica é pífia de maneira geral, mas se considerarmos apenas as universidades privadas, a situação é ainda pior. Segundo o Ranking Universitário Folha 2016, a universidade privada mais bem colocada — a PUC – Rio — ocupa a 21ª posição de uma lista de 188 instituições. Em relação ao critério de produção de patentes, é a 33ª e a 24ª quanto à sua desejabilidade pelo mercado de trabalho. A melhor colocada do nordeste, a UNIFOR, ocupa a 61ª posição. Na Bahia, estado onde moro, apenas duas estão entre as 188, sendo que a melhor posicionada ocupa a 123ª posição. Se considerarmos que em 2017, mais de 13 mil bolsas foram oferecidas em universidades/faculdades privadas da Bahia e só há duas (pessimamente) ranqueadas, concluiremos que as chances de um beneficiário de uma bolsa do ProUni na Bahia estudar em uma instituição muito ruim são enormes.

Atualmente, qualquer universidade regularmente autorizada a funcionar, com seus cursos cadastrados junto ao Inep e sem pendências com o fisco pode se cadastrar para participar do ProUni. Não há qualquer exigência de produção acadêmica ou de aceitabilidade pelo mercado de trabalho. Como essas instituições têm sua cota praticamente garantida de matrículas, não há qualquer estímulo para melhorarem seu desempenho. Para piorar, com escolaridade deficiente e baixo nível de expectativa acadêmica, os alunos dessas universidades pouco contribuem para a melhora na qualidade dos cursos. Segundo o Estudo especial sobre alfabetismo e mundo do trabalho, produzido pelo INAF, 48% dos que cursaram algum ano ou terminaram o ensino médio têm nível ainda elementar de alfabetismo e apenas 9% deles são proficientemente alfabetizados. Considerando-se que ter cursado o ensino médio completo em escola pública é um dos critérios para ter acesso ao ProUni, podemos supor com razoável certeza que, de maneira geral, o nível de alfabetismo desses alunos, ao chegar a essas instituições, é extremamente baixo. Na verdade, começam um curso universitário em uma universidade ruim, mal sabendo ler. Ou seja, trata-se do pior arranjo possível, em que as deficiências de quem oferece os serviços são agravadas pelas deficiências de quem os compra.

Sem considerar todas as mudanças necessárias na educação básica, uma possível solução pontual seria incluir um critério acadêmico para essas instituições. Por exemplo, exigir que todas as participantes fossem pelo menos ranqueadas para entrar, e regularmente certificadas para permanecer no programa. Mas o que fazer diante do quadro descrito acima? Usando como base o ranking citado, de mais de 50 universidades/faculdades baianas, apenas 2 estariam hoje aptas a participar do ProUni. Como suprir toda a demanda excedente? Privatizar as universidades públicas certamente aumentaria a oferta — além de ser desejável por motivos que não discutirei neste artigo. Meu ponto, no entanto, é que a solução para atender de maneira honesta as demandas legítimas de quem precisa se qualificar profissionalmente não deveria implicar em mais universidades. Possivelmente precisamos de menos — e melhores — universidades.

Muitos ainda acreditam que, para quem disputa uma vaga de trabalho, ter uma graduação que o mercado não deseja e não valoriza é melhor do que não ter graduação nenhuma. É hora de começar a questionar a validade desse processo que, reconhecidamente, não garante as competências necessárias nem ao estudante nem ao mercado, que precisa de pessoas efetivamente preparadas. Não precisamos de bolsas de estudo em universidades medíocres; precisamos é criar alternativas ao diploma universitário. Pessoas deveriam ter opções viáveis de buscar qualificações para a maioria das carreiras fora das universidades. Pelo menos uma boa parte das matérias da maioria dos cursos universitários no Brasil poderia ser substituída por modelos de educação alternativa. A qualificação poderia se dar através de cursos online, homeschooling, iniciativas empreendedoras, estágios, ações comunitárias ou uma mistura disso tudo. Quando se julgassem prontas, as pessoas poderiam então optar por se submeter a exames específicos produzidos por empresas privadas, cujos resultados seriam reconhecidos pelo mercado.

Usar o ProUni para bancar alunos em universidades que não qualificam, não formam e não produzem conhecimento é um erro e um desperdício. O que o ProUni banca é um engodo.

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